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Segurança alimentar para embalagens flexíveis: uma questão de toda a cadeia de embalagens

28/09/2017 10:21:02 - Por: Carlos Motta para EM. Artigo publicado na revista EM+ 2, julho/agosto de 2017

Esses tipos de embalagens são compostos por diversos filmes laminados com adesivos e estão sendo cada vez mais utilizados pela indústria de alimentos, bebidas e ração para animais de estimação.

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O tema segurança alimentar está se tornando muito importante dentro da sociedade atual e tem influenciado os hábitos de consumo. Esta preocupação com o que consumimos vai além dos alimentos e se estende às embalagens que acondicionam os alimentos e bebidas. O rigor das atuais legislações – nacionais e internacionais – está presente em toda a cadeia produtiva, inclusive nas embalagens, um setor que apresentou evolução significativa em processos nos últimos anos, principalmente em relação aos adesivos para laminação de embalagens flexíveis.

Esses tipos de embalagens (pouches) são compostos por diversos filmes laminados com adesivos e estão sendo cada vez mais utilizados pela indústria de alimentos, bebidas e ração para animais de estimação.

No entanto, embalagens flexíveis trazem questões críticas quanto à segurança dos alimentos que exigem atenção por parte dos fabricantes de embalagens. Uma das preocupações existentes é com a presença de aminas aromáticas primárias, substâncias sob suspeita de serem carcinogênicas, formadas a partir de monômeros de isocianatos não reagidos que são matérias-primas utilizadas na fabricação de adesivos e que podem migrar através da embalagem e entrar em contato com os alimentos. A formação de aminas aromáticas é favorecida pelo contato destes monômeros com água presente nos alimentos, por exemplo, em molhos de tomate.

Para eliminar o risco da presença de aminas aromáticas primárias no alimento, é preciso que seja utilizado adesivo poliuretânico projetado para apresentar rápido decaimento de aminas aromáticas primárias após o processo de laminação pelo convertedor e a obediência do tempo de cura recomendado pelo fabricante de adesivo.

O tempo necessário para que a embalagem torne-se segura com a ausência de aminas aromáticas depende do adesivo utilizado, dos substratos (propriedades de barreira, espessura dos filmes) e condições de temperatura e umidade do ar.

A Anvisa é o órgão brasileiro responsável por regulamentar os materiais que podem ser utilizados na fabricação de adesivos com contato com os alimentos. A Resolução RDC 56/2012, especifica que o limite de composição (LC) de isocianatos no material acabado seja menor ou igual a 1mg de NCO/kg de produto terminado e/ou Limite de migração específica (LME) seja não detectável (LD=0,01 mg/kg). Estes limites são muito baixos e devem ser obedecidos em todas as embalagens fabricadas pelos convertedores antes do envio destas embalagens às indústrias de alimentos.

A legislação Europeia – EC-10/2011 e suas emendas recomenda que o monitoramento da presença de isocianato residual seja executada pelo controle do nível de aminas aromáticas primárias na embalagem. Desta forma, o material laminado estará seguro quando o nível de aminas aromáticas primárias estiver abaixo do limite detectável pelo método analítico oficial do BFR (Federal Institute for Risk Assessment) da Alemanha.

Este limite de detecção é de 0.01 µg/Kg de alimento ou simulante (10 ppb). Como o fator de resposta da anilina (substância utilizada na detecção e quantificação das aminas) varia em função dos diferentes isômeros dos isocianatos, a análise de pior cenário (worst case scenario) indica que o limite seguro para embalagens é de 2 ppb. Além deste limite total, o BFR já solicitou para Comunidade Européia a inclusão de um limite individual ainda mais restritivo para as aminas aromáticas formadas a partir dos diversos monômeros de isocianatos presentes nos adesivos poliuretânicos de 2 ppb.

Um exemplo que elucida o conteúdo aqui apresentado é a embalagem para molho de tomate (pouch): um laminado em que se utilizou primeiramente o PET/Alumínio, após 24 horas se laminou o polietileno e, depois de dois dias, o produto foi envasado. Somando o tempo, são dois dias após a laminação da camada interna. O tempo de cura de 48 horas não é suficiente para garantirmos uma embalagem segura, então, ocorrerá a migração de monômeros. Estes monômeros entrarão em contato com a água presente no molho de tomate e formarão aminas aromáticas primárias. Como o molho de tomate não sofrerá nenhuma alteração de sabor ou odor, o consumidor irá utilizá-la sem perceber que está correndo o risco de ingerir aminas aromáticas.

Além dos componentes já citados, existe também a possibilidade de contato das tintas e vernizes utilizados na embalagem entrarem em contato direto com os alimentos. Este fenômeno é conhecido como set-off, ou seja, a transferência de monômeros não curados presentes nas tintas e vernizes utilizados no recobrimento externo de embalagens para a camada interna das mesmas durante o processo de rebobinamento. Por isso, deve-se garantir que os recobrimentos estejam bem curados ou bem secos, mesmo que para aplicações externas, uma vez que o set-off pode ocasionar o contato direto com o alimento.

Portanto, a especificação de materiais deve considerar o uso final da embalagem para identificar os principais riscos de contaminação. Os testes de migração devem ser realizados com a embalagem na condição mais próxima do uso final e os principais contaminantes devem ser informados pelos fabricantes de tintas, adesivos e vernizes aos convertedores para que estes realizem o controle por meio de ensaios de migrações específicas.

A utilização desta abordagem integrada por todos os componentes da cadeia alimentícia garantirá segurança alimentar ao consumidor final.

*Carlos Motta é gerente de desenvolvimento e aplicações de adesivos industriais da Henkel. Engenheiro químico formado pela Escola de Engenharia Mauá conta com mais de 30 anos de experiência na área. Nos últimos 11 anos, gerencia projetos de novos adesivos para bens de consumo como embalagens cartonadas e flexíveis e produtos higiênicos