Home » Cadeia do Leite » Uns choram, outros vendem lenço

Uns choram, outros vendem lenço

19/01/2018 10:48:12 - Por: Christiano Nascif, Zootecnista e Mestre em Produção de Ruminantes pela UFV. Sócio-proprietário da empresa Labor Rural. Coordenador técnico do PDPL-PCEPL/UFV. Consultor do Sebrae Minas.

Para muitos produtores, 2017 foi um ano de profunda depressão psicológica e econômica. Mas será que foi para todos? Será que foi para a maioria? Depende. Sim, não, talvez!

Responsive image
Para muitos produtores, 2017 foi um ano de profunda depressão psicológica e econômica. Mas será que foi para todos? Será que foi para a maioria? Depende. Sim, não, talvez!

O ano de 2017 foi marcado por muitos questionamentos em relação à cadeia de lácteos, protestos de produtores, dificuldade para as indústrias, recessão econômica, importação de lácteos novamente nas manchetes etc. Para muitos um ano a ser esquecido, para outros, um ano de desafios e aprendizagens, para alguns, dentro da normalidade.

Como já relatamos nessa coluna, na atividade leiteira como em qualquer negócio, no Brasil e em qualquer lugar no mundo, tem gente que ganha e tem gente que perde dinheiro. Dependendo do ano, momento e situação, fica mais fácil perder e, ou, mais difícil de ganhar, como aconteceu em 2017.

Em média, os preços do leite caíram consideravelmente, por diversos motivos, e os preços dos insumos, milho e soja não tiveram um comportamento tão favorável como previsto.

Quando analisamos os resultados técnicos e econômicos obtidos pelos 502 produtores que participam do Projeto Educampo, em parceria com o Sebrae, com os diversos laticínios e cooperativas de Minas Gerais, inclusive associados a CCPR Leite | Itambé, no ano de 2017, são confirmadas as informações. Teve produtor que ganhou e teve quem não ganhou dinheiro com a atividade leiteira, no período de out/2016 a set/2017 (os dados econômicos foram deflacionados pelo IGP-DI out/2017).

Lembramos de que essa amostra de produtores não foi previamente selecionada e que foram analisados todos os produtores em diversas regiões de Minas Gerais, com, no mínimo, um ano de assistência técnica. Ressaltamos que esses produtores possuem diversos sistemas de produção, em diferentes climas e regiões, com variado tempo de permanência no Educampo e recebendo assistência técnica e gerencial de qualidade, dos consultores competentes.

O atento leitor dessa coluna deve estar se perguntando: "aí não vale, pois a amostra é de produtores que recebem assistência técnica e gerencial?" A resposta é: vale sim, hoje não dá para discutir a atividade leiteira de forma profissional, sem considerar a possibilidade e a extrema necessidade de o produtor de leite contar com o apoio de uma qualificada assistência técnica e gerencial, seja pública, seja privada. Hoje assistência técnica e gerencial para o produtor de leite que quer se manter na atividade é como creme dental fora do tubo: não tem volta!

Portanto, "quem tem competência que se estabeleça". Isso vale tanto para o produtor quanto para nós, que damos assistência técnica e gerencial e dela sobrevivemos, pois, muitas vezes, o sucesso ou insucesso do produtor é reflexo do consultor que o assiste.

Ter competência é ser eficiente e ser capaz de se ajustar às adversidades que o mercado impõe. Daí surge, e fortalece cada vez mais, a prevalência de sistemas flexíveis de produção, capazes de equilibrar receitas e despesas com maior velocidade, de acordo com o que o mercado de insumos e do leite sinaliza.

Dos 502 produtores de leite analisados, podemos afirmar que 25% perderam muito dinheiro com leite, isto é, 125 produtores, mesmo recebendo e investindo em assistência técnica. Se com assistência técnica e gerencial está difícil, imagine sem ela. É praticamente impossível alcançar o sucesso almejado. Nesse caso, a atividade leiteira passa a ser um jogo, e pior, de azar.

Com todo esse cenário adverso, estamos diante de uma verdadeira febre dos Compost Barn pelo Brasil a fora, principalmente em Minas Gerais. Vimos crescer enormemente o interesse por ordenha "robotizada", dentre outras importantes tecnologias. Um robô varia de R$500.000,00 a R$700.000,00 para "cuidar" de aproximadamente 70 vacas em lactação. O custo da construção e de implantação de um sistema de produção de leite, em Compost Barn é em torno de R$3.500,00 a R$5.000,00, por vaca. Está errado investir em tecnologia? Claro que não. O que se discute é o momento e o posicionamento tecnológico e econômico em que cada produtor se encontra para tomar esta decisão. O efeito manada deve ser evitado, tanto para o bem, como para o mal.

O que é bom para um produtor, pode não ser bom para o outro. A situação econômica, financeira e tecnológica em que se encontra a propriedade pode ser diferente da outra. O nível de conhecimento de um produtor de leite e o controle do seu negócio, pode ser bem diferente entre eles, e daí surge o grande paradoxo, as grandes contradições.

Para investirmos em média, R$4.000,00/vaca, em um Compost Barn, alguns produtores de leite viajam 1.000 km, ficam fora da sua propriedade por três dias, não questionam o preço do leite e não sabem quanto custa produzi-lo.

Quando alguns produtores são convidados a assistirem uma palestra, a 10 km da sua propriedade, que vai durar no máximo duas horas, sobre um assunto de seu interesse e proferida por um profissional qualificado, esse produtor, na maioria das vezes, responde ao convite da seguinte forma: "não tenho tempo para gastar com besteiras".

Esses mesmos produtores são convidados para participarem de um programa de assistência técnica e gerencial, que vai pagar, em média, R$500,00/mês, o que equivale a R$10,00/vaca/mês, para uma propriedade que possui 50 vacas. Eles vão precisar de um caderno, um lápis, uma calculadora bem simples e dez minutos por dia para fazer as anotações zootécnicas e financeiras, para ter o controle do seu negócio e conhecer como está a sua atividade. Na maioria das vezes em que são convidados a resposta é: "isso é muito caro, se eu anotar tudo eu largo a atividade e fico doido"; "não tenho tempo; já sei tudo, nasci dentro de um curral". Será?

Investir R$4.000,00/vaca sem conhecer a sua produção de leite, pode, mas comprar um caderno, um lápis, uma calculadora e dedicar dez minutos por dia para controlar e conhecer o seu negócio, onde tem muito dinheiro empatado, não pode. A pergunta que não quer calar é: está certo isso?

Ainda bem que nem todos os produtores de leite pensam ou agem assim. Aqueles 125 produtores de leite que perderam dinheiro com a atividade leiteira no período de out/2016 e set/2017, produzindo leite a um custo total de R$1,67, venderam a R$1,27/l, operaram com margem bruta negativa de -R$0,13/l e prejuízo econômico de -R$0,40/l. Se continuarem assim, é melhor deixarem a atividade e, no mínimo, arrendar suas terras. Dos 502 produtores analisados, 250 venderam o leite a R$1,35/l e produziram a um custo total de R$1,23/l, portanto, operaram com um lucro de R$0,08/l.

Por outro lado, 125 produtores se destacaram. Eles obtiveram um lucro de R$0,32/l, pois produziram a um custo total de R$1,10/l e venderam a R$1,44/l. Perceba que a diferença entre grupos de quem perdeu e de quem mais ganhou nos preços do leite recebido e no custo total de produção alcançados foram: entre os preços, quem ganhou vendeu o leite por R$0,17 a mais; entre os custos, quem ganhou produziu um litro de leite a um custo R$0,57/l a menos. Ficou claro o que é essencial para o sucesso do produtor de leite?

No mesmo período analisado, portanto, mercado, clima, crise econômica e política, foram iguais para todos os produtores e, mesmo assim, a diferença entre os resultados foi grande. Certamente alguns fizeram o dever de casa da porteira para dentro, outros não. Mais uma vez: "quem tem competência que se estabeleça com eficiência e sustentabilidade".

Quando os programas de assistência técnica e gerencial, existentes no Brasil, entenderem que o principal cliente do consultor não é a vaca, não é a lavoura de milho e nem a pastagem e, sim, o homem, o produtor rural e mais, o bolso deste produtor, muita coisa irá mudar e se transformar para melhorar no agronegócio brasileiro.

Produzir a custos equilibrados, nada mais é do que o resultado da adoção de boas tecnologias de produção, adequadas à realidade e condições de cada produtor, com o objetivo de alcançar o ótimo econômico, ou seja, o lucro máximo sustentável, que nem sempre passa pelo custo mínimo e, muito menos, pelo ótimo ou máximo produtivo.

Observe na tabela contida neste artigo, alguns indicadores médios dos produtores, 25% inferiores, 50% intermediários e 25% superiores em rentabilidade, no mesmo período analisado, e conclua você mesmo, caro leitor. Perceba que o sucesso não acontece por acaso, que o maior lucro é resultado das coisas bem feitas e que os melhores produtores nem sempre são os maiores e, sim, os mais eficientes.

Fonte: Sebrae Minas

Os bons resultados econômicos e financeiros, simplesmente, refletem a capacidade dos produtores de leite que acreditam e investem numa assistência técnica e gerencial diferenciada, que é o caso do Educampo, de desenvolverem a atividade leiteira com eficiência.

O consultor e o produtor devem desenvolver a capacidade de adaptação e se ajustarem às adversidades do mercado que, no Brasil, sem dúvida, são inúmeras. Daí a importância de preconizar sistemas de produção de leite ajustáveis às diversas realidades de mercado e que sejam flexíveis. Os produtores precisam desenvolver características de metamorfose, não tão ambulante como a cantada por Raul Seixas, mas condizente com a instabilidade econômica, política e social tão desafiadora que o Brasil nos impõe.

Alguns leitores gostariam de estar lendo algo mais suave, coisas que realmente gostariam de ouvir ou de ler que servissem como justificativas. Porém, os números mostraram que no mesmo período em que alguns produtores de leite choraram, outros, a maioria dos 502 produtores, venderam lenços. Tanto que, mesmo em um ano de crise, esses vendedores de lenços reinvestiram mais de 15% da margem bruta anual na atividade leiteira, para continuarem crescendo.

Talvez esta coluna tenha expressado uma dura realidade, pois a verdade dói, mas nunca no sentido de "denegrir" ou "deprimir" e sim, de mostrar que muitos dos produtores de leite, ao contrário do que muitos pensam, são capazes, competentes e praticam uma pecuária leiteira que dá certo, compondo o Brasil que funciona. Se esses são capazes, porque outros não serão? E você, caro leitor e produtor de leite, está chorando ou vendendo lenços?