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Círculo de queijeiros na França luta pela diversidade do leite cru

23/01/2018 11:34:23 - Por: Débora Pereira no Blog Só Queijo para o Paladar, do Estadão

E no Brasil, a associação de comerciantes Comer Queijo quer criar um sistema de assistência sanitária e jurídica para os lojistas aderentes.

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A ideia germinava por vários anos. Preocupados com o desaparecimento contínuo das pequenas queijarias no campo, um problema que ameaça a diversidade queijeira francesa à longo prazo, os membros do Cercle des Fromagers Affineurs (Círculo dos Queijeiros Curados) decidiram no final de 2017 criar e financiar um fundo para ajudar pequenos produtores.

“- Queremos revitalizar a diversidade queijeira“, explica François Bourgon, presidente da associação e queijeiro em Toulouse. “– E mobilizar fundos para revitalizar o setor de leite cru, esse é nosso objetivo prioritário. O fundo pode ser solicitado quando um agricultor é confrontado, por exemplo, com problemas de saúde, um acidente, um incêndio… Mas, de forma mais direta, queremos impulsionar novas instalações, estimular fazendeiros à investirem na certificação orgânica ou a construção de novas estruturas de cura de queijo … Até agora, nós já nos mobilizamos coletivamente para ajudar um ou outro produtor que passa por dificuldades, mas queremos ter uma ferramenta real para trabalhar a longo prazo” disse ele.

Pierre Gay, membro do Círculo, recebeu a produtora mineira Marly Leite em sua cave. Foto: Débora Pereira/SerTãoBras.

Concretamente, o Círculo concederá empréstimos sem juros e sem garantia. Eles esperam que o fundo já esteja operacional a partir de 2018. O capital virá das taxas de associação do Círculo e de doações voluntárias. Foi criado um comitê de quatro pessoas para definir seus procedimentos operacionais: valor e duração dos empréstimos, critérios de seleção de projetos etc.

Soluções comuns para problemas individuais

“- Estamos diante do desaparecimento da geração 68, que está se aposentando”, justifica Xavier. “- Devemos encorajar novos agricultores a transformar o leite e apoiar os jovens que querem se instalar no campo. Nossa iniciativa é um primeiro passo para trazer-lhes uma pequena serenidade”. Com o desenvolvimento do projeto, eles pensam em transformar a associação em uma fundação.

A decisão de criar o fundo foi assinada em Séverac-le-Château, região francesa de Aveyron, na fazenda Seguin, que produz queijo de ovelhas. Foto: Débora Pereira/SerTãoBras.

A associação, que se reúne fisicamente duas vezes por ano, foi criada em 1987 por iniciativa de comerciantes de queijos do interior da França, como Philippe Olivier e Jean d’Alos. “– Ao contrário dos parisienses que tinham Rungis [uma espécie de Ceasa perto de Paris], os queijeiros do interior tinham muito difícil de encontrar fornecedores e poucos tinham caves de cura. Nós tínhamos uma necessidade urgente de sair desse isolamento, de comparar nossas experiências “, disse Philippe Marchand (Nancy), membro do círculo há 15 anos.

Durante as reuniões, todos falam sobre o que ocorre em suas regiões, contam quais queijos são mais vendidos, conversam sobre o relacionamentos com os produtores de queijo e trocam sobre seus erros e acertos. “– Somos orgulhosos de poder falar sobre temas fundamentais, sobre nossas iniciativas, tudo com verdadeira transparência” explica François Bourgon, “revelamos mesmo nossos preços de compra e venda, o Círculo é baseado em compartilhamento e inteligência coletiva. Somos mais fortes quando somos unidos, mesmo que sejamos mais rápidos sozinhos.” finaliza ele.

Compras sincronizadas diminuem custo de frete

O Círculo estruturou há oito anos uma solução logística comum, chamada Semavog, através da qual os queijeiros realizam compras coletivas: “– Agrupamos os pedidos, graças a uma boa comunicação entre nós e com isso conseguimos reduzir a conta do frete, mais de 50 produtores nos fornecem queijo em compras sincronizadas, chegamos a diminuir muito o custo do transporte, o que não seria possível sozinho“, diz Olivier Regente, queijeiro na cidade de Vannes, na Bretanha.

O custo médio do transporte de um queijo na França, do produtor ao lojista, é de 10% do valor do produto. Foto: Débora Pereira/Profession Fromager.

Círculo põe cada membro no seu quadrado

Ao longo dos anos, de acordo com as saídas e chegadas de novos membros, o círculo é renovado gradualmente. Novos membros são convidados pelos antigos e passam por um processo de adaptação. O critério é não ter dois membros em uma mesma região, para evitar a concorrência local entre eles, embora eles reconheçam que a concorrência para abastecer restaurantes e exportação exista entre alguns membros.

O último convidado foi o comerciante Benoît Lemarié, de Aix-en-Provence. Ele vai participar de duas ou três reuniões antes de ser efetivamente um membro. “– Precisamos nos conhecer melhor e verificar que compartilhamos a mesma filosofia“, diz François Bourgon. “– Nosso funcionamento exige uma grande confiança mútua, temos que dar para receber“, diz Philippe Marchand. “- É muito frutífero para todos: acho que não vou estar no nível que chegou hoje à minha empresa se o Círculo não existisse.” disse ele.

Da esquerda para direita: Jacques Quesnot, Sophie Schockaert, Christinne Quesnot, Olivier et Emmanuelle Regent, Olivier Nivesse, Philippe Marchan, Didier Lassagne, Charles Antoine, François Olivier, Sophie et Pierre Gay, Romain Olivier et François Bourgon. Foto: Arnaud Sperat Czar/Profession Fromager

Membros atuais do Círculo:

Philippe e Romain Olivier (Boulogne-sur-Mer),
Philippe Marchand (Nancy),
Pierre Gay (Annecy),
François Olivier (Rouen),
Olivier Nivesse (Clermont-Ferrand),
François Bourgon (Toulouse),
Olivier Régent (Vannes),
Sophie Schockaert (Mechelen),
Jacky Quesnot (Colmar),
Eric Lefebvre (Paris),
Vincent Vergne (Nimes),
Charles Antoine (Fromagerie Tête d’Or, Lyon)

No Brasil, futuros membros da associação Comer Queijo só entram se forem convidados

Com o intuito de trocar experiências e tratar questões comuns, 5 amigos tiveram a ideia de criar uma associação de comerciantes de queijo em 2016. Bruno Cabral, Bruno Garcia e Falco Bonfadini, de São Paulo, e Daniel Martins e Dan Strongin, do Rio de Janeiro, se mobilizaram para convidar outros comerciantes de outros estados sobre a necessidade de “cuidar de questões técnicas (conhecimento sobre produtos, vendas, administração), jurídicas e éticas“, como detalha Falco Bonfadini, dono da Galeria do Queijo.

Bruno Cabral, Falco Bonfadini, Dan Strongin e Daniel Martins no Prêmio Queijos do Brasil. Foto: Nelson Teixeira/ Acervo Pessoal.

A principal realização da associação foi o 3º Prêmio Queijos do Brasil em 2017. “- Mas nossos objetivos para fortalecer a categoria são mais amplos” completa Cabral “por exemplo, criar um sistema integrado de assistência sanitária e jurídica para os lojistas, criar uma ouvidoria para fortalecer o laço comercial respeitoso entre lojistas e produtores, realizar compras coletivas e continuar a fazer eventos de divulgação“. Para fazer parte da associação, Falco explica que eles ainda não têm novos inscritos por uma questão jurídica de formalização da associação, “- porém já decidimos que novos membros deverão ser convidados pelos antigos”.

Membros atuais da Comer Queijo

Distrito Federal
Tarsitano Sabor de Origem – Brasília

Minas Gerais
De Lá – Belo Horizonte
Mercearia Santos – Poços de Caldas
Roça Capital – Belo Horizonte

Rio de Janeiro
Clube do Queijo – Rio de Janeiro
Empório São Roque – Rio de Janeiro
Produtos D.O.C. – Rio de Janeiro
Queijo com Prosa – Rio de Janeiro

São Paulo
Bitaca Madalena – São Paulo
Empório Amigos do Queijo – São Paulo
Empório das Geraes – Riviera, Bertioga
Empório Fazenda – Campinas
Empório Rizza – Campinas
Mercearia Mestre Queijeiro – São Paulo
Galeria do Queijo – São Paulo
Os Legítimos Quitutes de Minas – São Caetano do Sul
Queijaria Armazém do Mineiro – São Paulo
Raízes de Minas – São Paulo
Sonhos de Queijo – Campinas
Trem Bom de Minas – São Paulo
Terra Doce Delicias Mineiras – Sorocaba