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Preço de alimento sobe no atacado sem grande impacto para inflação do varejo

17/04/2018 09:36:30 - Por: Valor Econômico

O economista André Braz mantém a previsão de uma inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, entre 3,3% e 3,5% este ano.

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O avanço do preço dos alimentos no atacado, percebido pelo Índice Geral de Preços - 10 (IGP-10), divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), vai causar alguma pressão sobre o varejo, mas não o suficiente para tirar a inflação ao consumidor dos trilhos. Em abril, o IGP-10 subiu 0,56%, acima do resultado de 0,45% de março, levando o acumulado em 12 meses a 1,31% e o acumulado no ano a 2,04%. Em abril do ano passado, o IGP-10 teve deflação de 0,76%.

Essa alta foi muito puxada pelo atacado, uma vez que o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) subiu 0,70% este mês, contra 0,63% no mês anterior. E dentro do IPA, os produtos agropecuários passaram de 2,03% em março para 3,45% agora. Em termos de estágios da produção, os bens finais saltaram de 0,09% para 0,77% na mesma comparação.

"A parte fácil para o consumidor é que foi uma questão sazonal, de oferta. A demanda não está aquecida", disse o economista André Braz, do Ibre/FGV, lembrando que essa demanda segue fraca mesmo com os esforços da autoridade monetária para baixar os juros e estimular a atividade econômica, o que limita o contágio da alta do atacado para o varejo.

Braz mantém a previsão de uma inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, entre 3,3% e 3,5% este ano. "Há efeitos sazonais que pressionam os alimentos, mas que não tem fôlego para pressionar tanto o varejo", ressalta Braz, citando como exemplo o leite.

O leite in natura, dentro das matérias-primas brutas, subiu 7,18% em abril, contra 1,77% em março, sendo que nos finais, o leite industrializado saltou de 0,99% para 6,97% na mesma comparação. Apesar dessa pressão no atacado, Braz não vê muito espaço para isso chegar com tanta força ao varejo. "Essa pressão no atacado tem mais a ver com a oferta do que com a demanda. Causa ruído, mas não será levado [ao varejo com tanta força]", diz Braz.

Outro exemplo é a soja, que mesmo com a quebra de safra na Argentina não causou efeitos sobre aves e suínos por aqui. Segundo Braz, os produtores brasileiros estão com sobra de carne de aves e suínos, inviabilizando o repasse das altas da soja - matéria-prima das rações. "Sempre acaba tendo um contágio [para o varejo], mas a demanda segura", frisou.

Uma fonte de alguma pressão, segundo o economista, vem dos combustíveis. A altas do diesel tendem a influenciar em itens como passagens de ônibus e em custos de transporte das cadeias agrícola e industrial. Ele lembra que em 12 meses o diesel no atacado acumula alta de 11,74%, enquanto o biodiesel - também utilizado em ônibus - avançou 16%. Já os óleos combustíveis acumulam alta de 11,84%. "Num ano em que se quer crescer, a demanda não está aquecida e os insumos energéticos caros, o que pode encolher ainda mais a demanda", diz Braz.

Segundo Braz, um ponto de alívio nos repasse de preços vem dos serviços, que não encontram força para reajustes relevantes. "A alimentação fica com oferta mais fraca e pode acelerar, mas outros grupos pesados no IPCA descomprimem. Os serviços caem. Essa queda de braço entre pressão de alta de pressão de baixa mantém o IPCA em taxa confortável, sem mudar a projeção para o ano", diz Braz.