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Argentina – O novo mapa da indústria de laticínios

11/05/2018 10:43:40 - Por: La Nacion traduzida pela equipe Terra Viva

A crise na maior cooperativa do setor trouxe junto novos jogadores e a consolidação de pymes que até então tinham participação muito reduzida e apenas no âmbito regional.

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Depois da longa negociação, a cooperativa SanCor finalmente se converteu em uma sociedade anônima, tendo como acionista o gigante Adecoagro, com um investimento de US$ 400 milhões. Claro que no meio das conversações, entre idas e vindas com potenciais compradores, a produção caiu, em decorrência da diáspora de muitos produtores de leite, e consequentemente houve não somente queda na participação do mercado pela SanCor, como foi reconfigurado o mapa da indústria de laticínios. 

A crise na maior cooperativa do setor trouxe junto novos jogadores e a consolidação de pymes que até então tinham participação muito reduzida e apenas no âmbito regional. “De alguma maneira a crise também ajudou. Quando os consumidores estão com o bolso mais apertado, se animam a provar coisas novas e experimentar segundas marcas”, reconhece a Associação das Pequenas e Médias Empresas de Laticínios (Apymel). “Este é um mercado altamente competitivo e muito sensível à variável “preços”, e para aproveitar as oportunidades que por uma ou outra razão aparecem de maneira quase permanente se deve caprichar na produção, empacotamento ou sistemas de distribuição. Houve a situação particular de algumas empresas que potencializaram essas possibilidades, mesmo que elas não deixem de ser situações conjunturais”, concorda Ercole Felippa, presidente da cooperativa cordobesa Manfrey, que acaba de inaugurar uma planta de leite longa vida dentro de seu complexo industrial de Freyre. A fábrica teve investimentos de 100 milhões de pesos e permitirá à Manfrey aumentar sua presença no mercado portenho.

Outra marca em ascensão é a Luz Azul. A empresa surgiu como uma divisão da Cooperativa Elétrica da cidade de Azul, que contava com uma pequena planta de lácteos. Em 2012 a fábrica passou para as mãos de Gabriela Benac, que conhecia a indústria, já havia participado da gestão de uma pyme láctea familiar. Com nova administração, Luz Azul ampliou sua linha de produtos – que hoje inclui mais de 50 itens, incluindo queijos curados, frescos, muçarela e doce de leite – e criou uma rede própria que hoje inclui dez sucursais e treze franquias, espalhadas na Capital Federal e na província de Buenos Aires, faturando mensalmente 30 milhões de pesos.

“O que nos diferencia da concorrência é que contamos com uma rede própria, através da qual comercializamos a metade de nossa produção, e o objetivo é chegar a 100% no médio prazo”, assegura Benac.

Luz Azul não é o único laticínio que apostou no modelo de lojas próprias, e em Buenos Aires outras empresas, como El Puente y Vacalín, estão percorrendo o mesmo caminho.

“Vender diretamente nos permite agregar valor à venda e ter controle sobre uma variável chave de qualquer negócio, o preço”, explica Benac.

No pelotão de ganhadores do novo mapa lácteo se destaca o nome Tregar, a marca de iogurte e doce de leite da García Hermanos Agroindustrial, que hoje processa mais de 180 milhões de litros anuais em sua fábrica em Gobernador Crespo, no norte da província de Santa Fe. Como nenhuma outra empresa do ramo, Tregar (a marca referência dos irmãos García) conseguiu ocupar os espaços deixados pela SanCor nas gôndolas dos supermercados e autosserviços chineses de Buenos Aires. De acordo com o levantamento realizado pela Kantar Worldpanel, Tregar se encontra no grupo das dez marcas que mais aumentou sua penetração nos domicílios nos últimos dois anos, em uma lista que inclui Natura, Marolio e Manos.

Na lista das lácteas emergentes também tem que ser incluída a Alimentos Refrigerados (ARSA), a firma do grupo Vientín que nasceu em outubro de 2016 depois de adquirir o negócio de iogurtes da SanCor, que incluiu as marcas SanCor Iogs, SanCor Vida, Shimy e Sublime. Na ARSA asseguram que os problemas da cooperativa SanCor impactaram inicialmente no seu negócio, mas, conseguiram recuperar o volume de vendas dos produtos refrigerados e a participação histórica da SanCor no mercado de iogurtes.

“O crescimento obtido em tão poucos meses mostra o peso que tem a marca. Conseguimos recuperar o espaço da marca em cadeias de supermercados e superamos as participações históricas” assegurou, Alejandro Capdevielle, gerente comercial da ARSA.

Reconversão industrial

As mudanças no mapa lácteo foram acompanhadas por uma profunda reconversão de toda a indústria, que nos últimos meses começou a apresentar uma certa recuperação. Depois da queda de 6% na produção registrada em 2017, nos primeiros três meses deste ano a indústria voltou a mostrar números positivos, com elevação média de 14% no trimestre, ainda que esteja operando com pouco mais de 50% da capacidade industrial instalada. A transformação também ocorreu ao nível de canais. Se bem que a categoria lácteos tenha sido uma das mais atingidas pela recessão dos últimos três anos, o impacto não ocorreu igual em todos os canais e a indústria não escapou do processo de êxodo de consumidores das grandes superfícies. “O setor varejista é o que mais cresce, em detrimento das grandes cadeias, enquanto que os distribuidores estão se mantendo constantes”, explica Manfrey. “A pyme láctea clássica de vinte anos que fazia muitos produtos e todos de uma qualidade não muito boa, hoje já não existe mais. As empresas que puderam crescer o fizeram através de uma especialização de sua produção em um dos produtos que é colocado no foco”, assegura o setor.

O melhor exemplo deste processo de especialização do mercado é o que passou na categoria mussarela. Nos últimos anos se consolidaram empresas ocupando nichos: Pampa Cheese (la láctea de Mario Quintana y Lopetegui) se especializou na mussarela de baixa umidade para exportação; a pyme de Entre Ríos, Tonutti, ao contrário, se voltou para o mercado interno com a mussarela de elevada umidade, enquanto que Barraza y Vidal se especializou em abastecer pizzarias.