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Vamos pensar fora da caixa? Seja o último a desligar a ordenhadeira

06/07/2017 10:59:46 - Por: Christiano Nascif, Zootecnista. Mestre em Produção de Ruminantes para a Universidade Federal de Viçosa (UFV). Sócio-proprietário da empresa Labor Rural. Coordenador técnico do PDPL-PCEPL/UFV. Consultor do Sebrae Minas.

É bem provável que quase 100% dos processadores de leite nos EUA não aceitarão leite produzido com rBST.

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Estudando um pouco mais sobre a atividade leiteira mundial me deparei com um artigo que previa o término do uso do hormônio rBST nos Estados Unidos até o final deste ano. É bem provável que quase 100% dos processadores de leite nos EUA não aceitarão leite produzido com rBST. 

Neste sucinto artigo, começamos com uma frase que nos chamou a atenção: "Os defensores (do rBST) tentaram explicar, mas nunca puderam convencer sobre os benefícios da tecnologia e como essa poderia fornecer mais produtos lácteos a custo menor (...)". O prezado leitor deve estar pensando: e daí? O que eu tenho com essa história, produzo leite no Brasil!

Todos já sabem, mas não custa nada lembrar que muitas empresas processadoras e que compram leite aqui no Brasil são as mesmas que compram leite nos EUA e, mais, se queremos cravar uma posição como um país exportador de leite, nós, produtores brasileiros, temos que estar sintonizados com tudo o que interfere na atividade leiteira mundial, pois fazemos parte de um mesmo contexto. Está claro agora por que escolhemos este assunto para nossa prosa deste mês? 

Para nossa discussão ficar mais fácil, vamos utilizar números, indicadores técnicos e econômicos reais, obtidos por um grupo de produtores de leite participante do Educampo em Minas Gerais. São 108 fazendas que tiveram seus indicadores analisados no período de abril/16 a março/17, com as informações econômicas deflacionadas pelo IGP-DI de abril/17. 

Todas essas fazendas vendem o leite produzido para a mesma empresa processadora. Para efeito de comparação, separamos essas fazendas em dois grupos: o grupo 1, composto por 64 fazendas, utiliza regularmente rBST nas suas vacas em lactação. Já o grupo 2, com 44 fazendas, não utiliza rBST. Portanto, vamos aos números para analisarmos as diferenças. 

Nos indicadores técnicos quanto à estrutura de rebanho e taxa de lotação, não percebemos diferenças significativas. A taxa de vacas em lactação, em relação ao total de vacas, no grupo 1, com uso de rBST, foi de 80,12%, enquanto no grupo 2, sem uso do rBST, foi de 77,3%. Quando analisamos a taxa de vacas em lactação, em relação ao total do rebanho, a diferença foi ainda menor, 37,33% para o grupo 1, contra 38,21% para o grupo 2. A taxa de lotação foi de 0,76 vaca em lactação/hectare, para o grupo 1, e 0,63 vaca em lactação/hectare para o grupo 2. Portanto, até agora, pequenas diferenças. 

Quando analisamos o indicador produtividade das vacas em lactação, a diferença foi mais significativa, mesmo não podendo atribuir a maior produtividade somente ao uso, ou não, do referido hormônio. O grupo 1 teve uma produtividade por vacas em lactação de 17,52 litros/vaca em lactação/dia, contra 14,87 litros/vaca em lactação/dia, das vacas do grupo 2. São 2,65 litros a mais no grupo 1 em relação ao grupo 2, ou seja, 15% superior.

Essa produtividade certamente auxiliou no aumento do volume médio de leite, diariamente produzido pelas fazendas do grupo 1, de 1.751 litros/dia, 42% superior ao volume do grupo 2, que foi 1.006 litros/dia. Se a produtividade das vacas nas fazendas que usam rBST foi 15% superior em relação às que não usam esse hormônio, e o volume diário de leite produzido foi 42% superior, podemos facilmente concluir que o maior volume de leite produzido teve maior influência do número de vacas em lactação do que da produtividade das vacas.

Com certeza o maior volume de leite produzido pesou favoravelmente para o grupo 1, quando comparamos a eficiência no uso dos fatores terra e mão de obra. A produtividade da terra no grupo 1 foi de 4.842 l/ha/ano, enquanto a do grupo 2 foi de 3.432 l/ha/ano. A produtividade da mão de obra do grupo 1 foi de 410 l/d.h e do grupo 2, 317 l/d.h.

Diante desses indicadores, o meu amigo e atento leitor desta coluna já deve ter concluído que o lucro com a produção de um litro de leite nas fazendas do grupo 1 foi maior do que o do grupo 2, lembrando de que não utilizam rBST. Certo? Errado.

As fazendas do grupo 1 venderam o leite a R$ 1,46/l (certamente devido ao maior volume), produziram a um custo total de R$1,31/l, e, portanto, obtiveram lucro de R$ 0,15/l. Já as fazendas do grupo 2 tiveram o preço de R$ 1,37/l pelo leite vendido, produzindo a um custo total de R$ 1,22/l e, assim, obtiveram os mesmos R$ 0,15/l de lucro obtidos pelas fazendas do grupo 1. 

O pulo da vaca está na análise do lucro total, pois, como sempre preconizamos, mais importante do que o lucro/litro é o lucro total ao final de um período quando queremos avaliar o negócio leite. Enquanto o grupo 1 teve uma média de lucro total por fazenda no ano de R$ 58.967, as do grupo 2 alcançaram R$ 29.27/ano. Embora o custo total por litro tinha sido igual para os dois grupos, o lucro total foi bem diferente: 50% superior para o grupo 1. Esse melhor resultado é atribuído, principalmente, ao volume da produção de leite, que foi 42% maior para o grupo 1.

Muitas vezes, a relação benefício/custo apresentada para o uso do hormônio rBST considera somente o gasto com a dose de hormônio em relação ao aumento previsto de leite por vaca em lactação na qual será utilizado.  Neste momento, esquecem de que para produzir mais leite, além de administrar o hormônio a mesma vaca terá que comer mais concentrado e mais volumosos, o que incide, proporcionalmente, no gasto de mais energia e combustível. Daí o custo total do leite produzido pelas vacas do grupo 1 ter sido maior do que o do grupo 2, R$ 1,31/l contra R$ 1,22/l, ou seja, 7% mais caro.

Para analisarmos: enquanto as fazendas do grupo 1 gastaram, em média, com concentrado R$ 0,53/litro, com hormônio R$ 0,035/litro, com energia e combustível R$ 0,062/litro e com volumosos R$ 0,115/litro, as do grupo 2 gastaram, respectivamente, R$ 0,46/litro, R$ 0,007/litro, R$ 0,053/l e R$ 0,098/litro.


Fonte: Projeto Educampo/Sebrae Minas.
Amostra: 108 fazendas.
Período: Abril/2016 a Março/2017 com dados corrigidos pelo IGP-DI de Abril/2017.

É importante observarmos que não houve influência significativa do gasto com o hormônio no aumento da produtividade por vacas em lactação, pois no grupo de fazendas e período analisados o aumento foi de apenas 8%.

Caminhando para o final da nossa prosa, é oportuno ressaltar que não tivemos a intenção de ser a favor ou contra o uso do rBST na produção de leite. Acreditamos que essa discussão é muito mais complexa. Tentamos, à luz dos números reais, apontados por produtores e consultores técnicos em nível de campo, contribuir para uma reflexão dos diletos leitores e produtores de leite.

Alguns produtores que abandonaram o uso da tecnologia rBST aprenderam a viver sem ela e com 12 a 24 meses já conseguiram alcançar a mesma produtividade por vaca. Na verdade, fizeram uma compensação. Para compensar o não uso do rBST, tiveram que intensificar as ações de manejo nutricional e reprodutivo e melhorar as condições de conforto, sem descuidar do contínuo melhoramento genético.

Se um dia tivermos que deixar de usar rBST nas nossas vacas, por algum motivo, a saída compensatória já está traçada: fazer ou continuar fazendo tudo aquilo que já deveria ter sido feito. Simples assim. 

As cooperativas, indústrias de laticínios, produtores e nós, técnicos, não precisamos esperar para começar a agir e aumentar a atenção para obter um melhoramento genético do rebanho. Precisamos cuidar de alimentação com qualidade e quantidade, manejo reprodutivo adequado, conforto animal, manejo ambiental (dejetos, água etc), produção de leite em maior escala (volume), com qualidade e equilíbrio entre receita e custo de produção, tudo isso permeado, é claro, por uma assistência técnica e gerencial competente. 

Portanto, nada de novidades para quem leva a atividade leiteira a sério. Ao invés de temer algo que, quem sabe, está por vir, melhor começar a agir logo. Independentemente de qualquer sanção que possa ocorrer, seja eficiente, pois quem fizer o dever de casa da porteira para dentro, se for o caso, sempre será o último a desligar a ordenhadeira quando sair. Como cantou Geraldo Vandré: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".