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Agronegócio do leite: oportunidade para o Brasil ser competitivo

26/07/2017 11:16:40 - Por: Wallisson Lara Fonseca em Revista V&Z

O setor de lácteos pode aproveitar a demanda aquecida que se prospecta e reverter seu status na balança comercial, retomando o posto de exportador perdido em 2008.

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O crescimento da população mundial, prevista para superar 9 bilhões de pessoas até 2050, promoverá muitos desafios, entre eles a produção sustentável e a segurança alimentar. A sustentabilidade demanda produção associada à preservação de recursos naturais, à viabilidade econômica e ao respeito aos direitos sociais, e a segurança envolve o fornecimento de alimentos com qualidade, na quantidade necessária.

De acordo com estudo realizado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) em parceria com a OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico), entre os produtores de alimentos o Brasil é o país com maior potencial de crescimento produtivo. A expectativa é de que possa aumentar sua produção de alimentos em 40%.

Neste cenário em que nos reafirmamos como celeiro mundial, o pecuarista brasileiro pode tornar-se protagonista. Assim, o setor de lácteos pode aproveitar a demanda aquecida que se prospecta e reverter seu status na balança comercial, retomando o posto de exportador perdido em 2008. Mas para isso é preciso começar a trabalhar agora.

2. Evolução anual da Balança Comercial de Lácteos (1997 – 2015)

A balança comercial de lácteos chegou ao final de 2015 com saldo negativo de US$ 100,09 milhões, o que equivale a 651,6 milhões de litros de leite. Em comparação com 2014, as importações cresceram 26,24%. Já as exportações diminuíram tanto em volume quanto em receita, 10,67% e 7,61% respectivamente.


3. Principais fornecedores de lácteos para o Brasil em 2105.


4. Preço ao produtor

Nos últimos anos (2013/2014), o preço pago ao produtor subiu acima da inflação, fato que – juntamente com a baixa volatilidade de preços no Brasil em relação ao mercado internacional – pode ter estimulado o aumento da produção. No entanto, ao compararmos os primeiros semestres dos últimos cinco anos, em 2015 a curva de preços ao produtor apresentou um dos menores patamares, com margens mais apertadas depois de um período muito positivo nos dois anos anteriores.

Essa conjuntura resultou na diminuição dos investimentos. O produtor ficou cauteloso diante das incertezas do cenário político e econômico interno e externo e reduziu a oferta, na esperança de que o mercado se regulasse e, assim, os preços voltassem a um nível rentável.

5. Evolução dos preços 

A partir de 2015, os resultados econômicos da pecuária leiteira foram pressionados pelo aumento do custo de produção e pela redu- ção da cotação do leite para o produtor. Ao compararmos a média de 2015 com a de 2014, o preço do leite teve queda de 2,2% em valores nominais, enquanto os custos subiram, em média, 5,4%.


6. Variação mensal de custo de produção da Pecuária Leiteira:

Na comparação com janeiro de 2105, os custos subiram 19,6% no primeiro mês de 2016. O destaque para esse incremento é a mão de obra, devido à elevação do salário mínimo (11,7%), outros itens também tiveram relevância para os custos, tais como concentrados energéticos (+ 5,1%), combustíveis/lubrificantes (+ 2,6%), defensivos agrícolas (+ 1,0%) e suplementos minerais (+ 0,6%).
7. Relação de troca: litros de leite / kg de milho


8. Mercado internacional 

Enquanto internamente os custos subiam, no mercado internacional os preços caíam. A queda na cotação da tonelada do leite em pó tem sido contínua desde o leilão realizado pela GDT (Global Dairy Trade) em 15 de dezembro de 2015, quando alcançou US$ 2,304/tonelada – menos 28,9% se comparado aos resultados do início do ano (US$ 3,242). Existe a previsão de que a cotação alcance US$ 3,450/ tonelada em meados de 2016, mas isso depende do aumento de demanda dos principais importadores de leite em pó.

9. Preços do leite em pó no mercado internacional nos últimos 12 meses 

O cenário negativo para o leite em pó no mercado internacional, segundo o Rabobank, pode ser explicado pelo aumento em torno de 2% na produção dos seis maiores exportadores no primeiro quadrimestre de 2015: Argentina, Austrália, Brasil, Estados Unidos, Nova Zelândia, União Europeia e Uruguai.

Concomitantemente ao incremento na produção, os principais importadores de leite em pó reduziram a demanda. A China, por exemplo, com seus estoques elevados, produção doméstica maior e demanda interna fraca, diminuiu as importações em 50% no 1º quadrimestre de 2015, em comparação ao mesmo período de 2014. Já a Rússia, neste mesmo período, passou por problemas econômicos e ainda impôs embargos aos produtos lácteos da Austrália, Canadá, Estados Unidos, Noruega e União Europeia. O resultado destes fatores foi a queda de 42% nas importações.


10. Competitividade 

Diante do cenário econômico nacional, das oscilações globais e da conjuntura promissora desenhada pela ONU, para que o pecuarista se mantenha competitivo na sua atividade é necessário melhorar a gestão da propriedade e fazer a alocação estratégica dos recursos. Minimizar custos, maximizar lucros perpassa pela produtividade. Um dos caminhos para o êxito é a assistência técnica, que pode contribuir de maneira fundamental na execução mais eficiente das atividades da propriedade.

Em Minas Gerais, o programa Balde Cheio tem cumprido essa tarefa ao transferir tecnologia e orientar o produtor na tomada de decisões, por meio da interpretação dos indicadores técnicos e econômicos da atividade leiteira, visando ao melhor retorno para o negócio rural. 

11. Caso de Sucesso do Programa Balde Cheio

12. Distribuição do Programa Balde Cheio em Minas Gerais, 2015.


13. Considerações finais: Perspectivas 

Para 2016, espera-se que o cenário de alta inflação e recessão econômica no Brasil continue, o que influenciará diretamente o consumo dos lácteos, principalmente os produtos de maior valor agregado. Na outra ponta, o preço dos insumos (milho e farelo de soja) deve permanecer em patamares elevados, devido à valorização do dólar diante do real.

Com relação aos preços do leite e derivados, o mercado vem se firmando nos últimos meses, demonstrando que a produção está mais ajustada com a demanda, com a curva de produção diminuindo em importantes bacias leiteiras. Em janeiro o volume produzido se reduziu em 2,5% na comparação com dezembro último. Considerando a média brasileira, a produção foi menor em razão dos recuos na região Sudeste e Centro-Oeste.

No momento, a situação econômica tanto interna quanto externa pede cautela. O produtor deve ficar atento aos números e cenários, pois, além de sempre poder haver boas oportunidades em meio às crises, existe a previsão de aumento da demanda por alimentos em todo o mundo até 2050, e a expectativa do alto potencial do Brasil para crescer e produzir mais. Ao produtor, fica facultado inserir-se na fatia que lhe compete, assumindo o seu papel de protagonista na produção de alimentos.

Autor: 

1. Wallisson Lara Fonseca: Zootecnista, CRMV-MG nº 1647/Z, assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (FAEMG) e coordenador técnico do programa Balde Cheio em Minas.