Mudança de uso da terra impacta no carbono do solo

17-03-2025 15:20:19 Por: Instituto de Zootecnia do Estado de SP. Foto: Divulgação/IZ de SP.

Mudança de uso da terra impacta no carbono do solo
Um recente estudo feito por pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios – APTA e da Embrapa Meio Ambiente, parte do projeto “Melhorando o manejo da pastagem como “solução baseada na natureza” para sequestro de carbono no solo, financiado pela Shell e Fapesp, contribuiu para entender como a mudança do uso da terra impacta os estoques de carbono (C) do solo no Brasil e sua relação com as mudanças climáticas globais. A pesquisa analisou a conversão de floresta (Mata Atlântica) em pastagens não manejadas e, posteriormente, a conversão dessas áreas em lavouras de soja ou em sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta (iLPF).

Conduzido no Instituto de Zootecnia (IZ), em Nova Odessa, SP, o trabalho revelou que as conversões de floresta para pastagem e de pastagem para usos agrícola ou sistema de integração influenciam o estoque de C no solo. Utilizando imagens do Google Earth e análises laboratoriais, pesquisadores observaram impactos ao longo de 39 anos, evidenciando a interferência de efeitos de borda nos fragmentos de floresta e a contribuição dos sistemas conservacionistas para o sequestro de carbono.

De acordo com Rafaela Ferraz Molina, em sua dissertação, a conversão de floresta para pastagem aumentou o carbono orgânico do solo apenas na superfície, sem mudança em subsuperfície. Cabe mencionar que os fragmentos de Mata Atlântica avaliados na pesquisa tem forte influência antrópica, estando próximos das cidades e sujeitos e eventos de fogo ao longo dos anos, situação comum no Estado de São Paulo.

“Já a mudança de uso da terra de pastagem para o sistema iLPF elevou os estoques de C ao longo do perfil do solo até 1 m de profundidade, indicando boa contribuição para o sequestro de C e colocando o sistema integrado com alternativa no combate ao desafio climático. O iLPF demonstrou taxa média de acúmulo de carbono no solo 5 ton por ha ano. Em contraste, o cultivo de soja em plantio direto manteve o estoque de C do solo sob pastagem, sem ganhos ou perdas”, explica Molina.

O estudo destaca que sistemas conservacionistas, como o iLPF e o plantio direto, são alternativas sustentáveis para a agricultura brasileira. O iLPF favorece o acúmulo do carbono no solo, o que significa retirar CO2 da atmosfera. Atualmente, o Brasil tem 33,5% de seu território ocupado pela agropecuária, setor que contribuiu com 23,8% do PIB nacional em 2023 e 49% das exportações do país.

Especialistas alertam que a mudança do uso da terra foi responsável por 41,4% das emissões totais do setor agropecuário no Brasil. Desde 1750, a concentração de CO₂ na atmosfera aumentou, mas parte desse carbono pode ser capturada pelo solo e pelos oceanos. Estratégias que incentivem a adoção de sistemas sustentáveis são fundamentais para mitigar os impactos ambientais da agropecuária e garantir a produção agrícola a longo prazo.

A dinâmica dos estoques de carbono do solo está diretamente ligada a fatores como clima, tipo de solo e mudança no uso da terra. No Brasil, a conversão de vegetação nativa para pastagem tem sido uma das mudanças mais impactantes. De acordo com o MapBiomas, entre 1985 e 2023, 84,1% das novas áreas de pastagem foram abertas em locais antes cobertos por vegetação nativa.

Estudos indicam que pastagens manejadas corretamente podem aumentar os estoques de carbono, enquanto pastos degradados tendem a perder esse recurso. A adoção de sistemas integrados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, tem demonstrado potencial para reverter esse cenário, promovendo a retenção de carbono e a conservação do solo.

Para Sandra Furlan, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coorientadora do estudo, o Sistema de Plantio Direto em grãos também se mostra uma alternativa eficaz para mitigar a perda de carbono, por se tratar de uma prática que não revolve o solo e permite manter ou acumular o C estocado. Entre 2006 e 2017, áreas sob este sistema cresceram 84,9%, atingindo 33 milhões de hectares em 2018.

Para incentivar práticas sustentáveis, o Plano ABC+ (2021-2030) visa ampliar o uso de tecnologias agrícolas de baixa emissão de carbono, como a recuperação de pastagens degradadas e a adoção de sistemas agroflorestais. O avanço dessas iniciativas pode garantir um equilíbrio entre a produção agropecuária e a conservação ambiental no Brasil.

Os resultados reforçam o papel das pastagens no armazenamento de carbono no solo, a questão de fragmentos de mata altamente impactados pela ação do homem, e destacam o potencial de sistemas conservacionistas e bem manejados na captura de carbono pelas plantas e estabilização de parte desse C no solo. O estudo indica que sistemas integrados, como o iLPF, podem aumentar a resiliência da agropecuária frente às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que contribuem para a sustentabilidade da produção agrícola e pecuária.